sábado, 13 de dezembro de 2008

Ana Cristina César


FAGULHAS


Abri curiosa

o céu.

Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria rir, chorar,

ou pelo menos sorrir

com a mesma leveza com que

os ares me beijavam.

Eu queria entrar,

coração ante coração,

inteiriça,

ou pelo menos mover-me um pouco,

com aquela parcimônia que caracterizava

as agitações me chamando.

Eu queria até mesmo

sabe ver,

e num movimento redondo

como as ondas

que me circundavam, invisíveis,

abraçar com as retinas

cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria

(só)

perceber o invislumbrável

no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria

apanhar uma braçada

do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria

captar o impercebido

nos momentos mínimos do espaço

nu e cheio.

Eu queria

ao menos manter descerradas as cortinas

na impossibilidade de tangê-las.

Eu não sabia

que virar pelo avesso

era uma experiência mortal.



Ana C. (1952-1983)

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